21 de abril de 1985: A primeira vitória de Senna na F1

Foi em 1985, em Portugal, que Ayrton Senna conquistou a primeira vitória na F1

0 aos 100 21/04/2018 Curiosidades

Há momentos históricos que nunca mais se apagam da memória. No dia 21 de abril de 1985, Ayrton Senna deixou um registado: venceu o seu primeiro Grande Prémio de F1, no Estoril, debaixo de uma chuva diluviana, controlando com exímia perícia o Lotus 97C e escrevendo uma das mais belas páginas da história da F1!

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A meio da década de 80, o Campeonato do Mundo de F1 gozava de enorme popularidade. A fábrica de ídolos em que se tinha transformado, elevava ao estatuto de “deuses das pistas” nomes como Alain Prost, Niki Lauda, Nigel Mansell, Nelson Piquet, Michele Alboreto ou René Arnoux, fruto das suas extraordinárias proezas ao volante, perfeita disciplina tática ou gigantesca temeridade. Mas, a 21 de abril de 1985, o “clube dos privilegiados” teve que receber, sem reservas, mais um predestinado: Ayrton Senna da Silva!

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Numa altura em que a F1 estava longe da era tecnológica que hoje atravessa, num tempo em que o valor do piloto tinha mais ascendência que a potência da máquina ou quando as corridas se decidiam mais “no braço” do que com a estratégia das boxes, o quase desconhecido Ayrton Senna ousou pôr em causa a superioridade de adversários com experiência infinitamente superior. O piloto brasileiro bateu-os no G.P. de Portugal de 1985, depois de um festival de condução à chuva, que nunca mais se apagou da mente de que assistiu aquela corrida ao vivo ou de quem com ela vibrou pela televisão ao longo das suas “infindáveis” 67 voltas e “intermináveis” 2h00m28,006s!

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Era o segundo Grande Prémio da época e Senna tinha desistido no primeiro, perdendo a primeira oportunidade de justificar a sua contratação pela Lotus-Renault em 1985, que em muito se tinha ficado a dever à memorável corrida efetuada no Grande Prémio do Mónaco no ano anterior, onde, com o seu modesto Toleman-Hart Turbo, só não bateu o experiente Alain Prost, à chuva, porque “alguém” decidiu terminar a corrida mais cedo!

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A Portugal, Senna chegou, portanto, com uma sede desmesurada para mostrar o seu talento, contando como aliado com o competitivo Lotus 97C, “vestido” com a saudosa decoração da “John Player Special” e animado pelo motor Renault EF15B, um V6 de 1.5 litros, com turbo Garrett, 154 kg de peso e capaz de debitar cerca de 900 Cv ou seja, qualquer coisa como a capacidade de massacrar o asfalto com uma espantosa potência específica de 602 Cv/litro!

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A história da primeira, única em Portugal, e seguramente uma das mais famosas vitórias do piloto brasileiro começou a construir-se nos treinos, disputados então com asfalto seco. Foi aí que Senna também iniciou a sua coleção de 65 Pole-Positions, que ainda hoje (quase 23 anos após a sua morte) o coloca no segundo lugar do ranking dos melhores tempos nas Qualificações no universo dos mais de 66 anos de história da F1.

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Cumprindo uma volta-canhão aos 4.350 metros do traçado do Autódromo do Estoril, com o Lotus-Renault extremamente bem afinado, em 1m21,007s e colocando Alain Prost e o seu McLaren-TAG Porsche a 0,413s, Senna deixou o primeiro sinal que a história da F1 estava prestes a mudar…

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Na manhã de 21 de abril, o céu acordou carregado e nada nem ninguém conseguiu conter a “fúria dos deuses” que descarregaram sobre a Serra de Sintra uma enxurrada de água. Adivinhava-se um tapete de asfalto transformado em oceano. O “cheiro” a nervosismo de cada piloto era indisfarçável! Mas não de todos. Ayrton “respirava” confiança e mal o semáforo vermelho mudou para verde o seu ego blindado também disparou, acompanhando, numa simbiose perfeita, as mesmas 11.000 rotações que o motor Renault produzia, antes de cada passagem de caixa.

Tinha-se iniciado uma viagem solitária. De imediato, Senna se despediu dos adversários, com a maior experiência do seu companheiro de equipa, Elio de Angelis, a pouco lhe servir para segurar o infernal ritmo do brasileiro. Senna travava onde mais ninguém travava e colocava o pé no acelerador mais cedo que todos os outros. Não havia a avançada telemetria dos dias de hoje, mas para ganhar sistematicamente 1,5s por volta aos seus principais perseguidores, não havia outra explicação. A precisão da sua condução e os raros golpes de correção que infligia ao volante do Lotus-Renault deixavam a ideia de que Senna corria numa pista seca e todos os outros numa pista alagada!

Espremer um F1 naquelas condições extremas, com quase um milhar de cavalos e com um indisciplinado turbocompressor ainda sem ALS (Anti-Lag System), obrigava a uma dose extra de talento. Mas, há muito tempo que a F1 era o principal viveiro de talento do desporto automóvel, pelo que só quando, os excessos de confiança, o aquaplaning ou simplesmente a luta contra o cronómetro traiu virtuosos campeões como Alain Prost ou Keke Rosberg, entre outros tantos pilotos, se percebeu que o que estava em cima daquele asfalto terrivelmente traiçoeiro não era apenas um miúdo de 25 anos cheio de talento, mas um piloto sobredotado.

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Da box para a pista, nem os gestos de desespero para que reduzisse o ritmo do seu engenheiro de pista da altura, Steve Hallam, quando, definitivamente, já na parte final da corrida, a pista se transformou num lago mais apropriado para barcos do que monolugares de F1, detiveram a fogosidade de Senna. Naquele dia, dos 26 pilotos que arrancaram só nove terminaram a corrida e só um na mesma volta que Senna (Michele Alboreto), mas a mais de um minuto do inquebrável piloto paulista, que para além da vitória, também não teve dificuldades em registar a Volta mais Rápida, juntando-a à Pole Position, assegurada 24 horas antes, num fim-de-semana simplesmente perfeito.

Dentro do cockpit, claro, a visão era diferente. Já segurando o seu célebre capacete amarelo e instigado a comentar como podia ter infligido aquele ritmo com condições de aderência praticamente nulas, Senna sorriu e disparou para os microfones: “Perdi a conta das vezes em que quase bati noutro carro”! Mas nem isso sossegou o seu espírito e apaziguou a sua ansia de vencer! Por isso, as palavras que proferiu a seguir transpiravam de realização: “Hoje é um dia muito feliz para mim”!

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No mesmo dia em que o Brasil viu desaparecer o seu Chefe de Estado (nunca empossado), Tancredo Neves, viu também nascer um herói! Um herói que devolveu o sorriso ao povo brasileiro naquele dia, que fez toda a sua equipa saltar para o meio da pista quando cruzou a bandeira de xadrez, comemorando o fim de três anos de jejum de vitórias; um herói que fez uma festa dentro do Lotus-Renault celebrando efusivamente de cintos desapertados e as duas mãos fora do exíguo habitáculo.

A F1 nunca mais seria a mesma, mesmo se, nesse ano, Ayrton Senna, só voltou a vencer cinco meses e 11 Grandes Prémios depois, na Bélgica. Que importava o hiato?! Senna tinha começado a fazer história na F1…

Fotos: Renault e Formula1.com

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