A União Europeia prepara-se para flexibilizar uma das decisões mais importantes para o futuro do automóvel. Um acordo entre os principais grupos políticos do Parlamento Europeu abre a porta à continuidade dos motores a gasolina, gasóleo e híbridos novos depois de 2035, embora com condições e limites nas emissões.
O fim dos motores de combustão na Europa, tal como estava inicialmente previsto, poderá afinal não acontecer nos moldes anunciados. A mudança surge depois de anos de pressão por parte da indústria automóvel e de vários Estados-membros, preocupados com os custos da transição elétrica, a competitividade europeia e o ritmo de adoção dos veículos elétricos.
A 20 de outubro de 2026, negociadores do Partido Popular Europeu, dos Socialistas e Democratas e do Renew Europe chegaram a um acordo sobre a posição do Parlamento Europeu. A proposta aponta para uma redução média de 87,5% das emissões dos automóveis novos em 2035, complementada por mecanismos de compensação.
O que muda para os carros novos a partir de 2035?
A legislação europeia em vigor estabelece uma redução de 100% das emissões de CO₂ dos automóveis e das carrinhas novos a partir de 2035, face aos valores de referência. Na prática, este objetivo corresponde a emissões de escape de zero gramas de CO₂ por quilómetro, inviabilizando a comercialização de novos modelos convencionais a gasolina ou gasóleo, incluindo híbridos que emitam CO₂ pelo escape.
A Comissão Europeia propôs, em dezembro de 2025, rever esta meta e substituí-la por uma redução de 90%. Os restantes 10% poderiam ser compensados através de mecanismos que incluem a utilização de aço de baixo carbono produzido na União Europeia e combustíveis alternativos, como biocombustíveis avançados e combustíveis sintéticos, conhecidos como e-fuels.
O acordo político agora alcançado aponta para uma abordagem ainda mais flexível: uma redução média de 87,5% para os automóveis novos. No caso das carrinhas, a proposta prevê uma redução de 80%.
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Esta alteração poderá permitir que os fabricantes continuem a vender determinados modelos com motores de combustão depois de 2035. No entanto, não significa que todos os carros a gasolina, gasóleo ou híbridos possam continuar a ser comercializados sem restrições.
Híbridos, gasolina e gasóleo podem sobreviver
A principal consequência para o mercado automóvel será a possibilidade de prolongar a vida comercial de diferentes tecnologias de propulsão.
Os híbridos convencionais, os híbridos plug-in e os modelos com motores de combustão de elevada eficiência poderão continuar a ter lugar nas gamas dos fabricantes europeus, desde que sejam cumpridas as metas de emissões e as condições previstas na legislação definitiva.
A mesma possibilidade poderá abranger veículos com sistemas de autonomia alargada, nos quais um motor de combustão produz eletricidade para alimentar o sistema de propulsão elétrico ou carregar a bateria.

A margem de flexibilidade poderá ser particularmente relevante nos segmentos B e C, que incluem utilitários e compactos. Nestes escalões de preço, a eletrificação integral continua a representar um desafio económico para alguns fabricantes, sobretudo nos modelos de acesso.
Importa, contudo, esclarecer um ponto: a percentagem de redução das emissões não corresponde a uma quota legal fixa de automóveis com motor de combustão. O cumprimento das metas continuará a depender das emissões médias das frotas de cada fabricante e das regras de compensação que venham a ser aprovadas.
Os combustíveis sintéticos e os biocombustíveis ganham importância
Os e-fuels e os biocombustíveis poderão desempenhar um papel importante na flexibilização das regras europeias.
Os primeiros são combustíveis sintéticos produzidos através de processos que podem combinar hidrogénio e dióxido de carbono. Os segundos são obtidos a partir de matérias-primas biológicas, dependendo o seu impacto climático da origem e do processo de produção.
A possibilidade de recorrer a estas alternativas tem sido defendida por países como a Alemanha, que procuram preservar a utilização de motores de combustão em determinadas aplicações.
Ainda assim, existem obstáculos importantes. A produção destes combustíveis continua limitada e os custos são elevados, pelo que a sua disponibilidade poderá condicionar a dimensão do papel que terão no mercado automóvel.
A utilização de combustíveis alternativos não significa, por si só, que um veículo tenha impacto climático nulo. O resultado depende de fatores como a produção do combustível, a energia utilizada no processo e as emissões ao longo do seu ciclo de vida.
Porque está Bruxelas a rever as regras?
A flexibilização resulta de uma combinação de fatores económicos, industriais e políticos.
A indústria automóvel europeia enfrenta custos elevados associados à eletrificação, ao mesmo tempo que procura responder à concorrência dos fabricantes chineses. A evolução da procura por automóveis elétricos também tem sido desigual entre os diferentes mercados europeus.
França e Alemanha, dois dos principais países produtores de automóveis na Europa, têm defendido uma abordagem que permita conciliar a redução das emissões com a proteção da capacidade industrial, dos postos de trabalho e das cadeias de fornecimento europeias.
A Comissão Europeia enquadrou a revisão no chamado Automotive Package, apresentado em dezembro de 2025, invocando o princípio da neutralidade tecnológica. A ideia é manter a trajetória de descarbonização sem depender exclusivamente de uma única tecnologia.
A flexibilização poderá, assim, dar mais tempo aos fabricantes para adaptarem as suas gamas e reduzirem os custos, sem abandonar o objetivo de diminuir as emissões do setor automóvel.
O que significa para quem pretende comprar carro?
Para os consumidores, uma eventual revisão das regras poderá traduzir-se numa maior diversidade de modelos disponíveis depois de 2035.
Os automóveis híbridos, híbridos plug-in e alguns modelos a gasolina ou gasóleo poderão continuar nos concessionários durante mais tempo do que inicialmente previsto. A medida poderá também dar aos fabricantes maior margem para desenvolver soluções intermédias, enquanto os preços dos elétricos e a infraestrutura de carregamento evoluem.
O automóvel elétrico continuará, contudo, a ter um papel central na estratégia europeia. A proposta mantém mecanismos destinados a incentivar a produção de pequenos elétricos acessíveis na União Europeia, através de incentivos regulatórios conhecidos como supercréditos.
Para quem está a ponderar comprar um carro nos próximos anos, a mudança não significa que seja necessário adiar a decisão ou abandonar a opção elétrica. A escolha continuará a depender de fatores como o preço de aquisição, os quilómetros percorridos, os custos de utilização e as necessidades de carregamento.
A decisão ainda não é definitiva
Apesar do acordo político alcançado, a revisão das regras ainda precisa de ultrapassar etapas importantes.
Os grupos políticos terão de confirmar o entendimento, seguindo-se a votação no plenário do Parlamento Europeu. Depois, o Parlamento e o Conselho da União Europeia terão de chegar a um texto final.
Até à conclusão desse processo, os valores anunciados podem sofrer alterações. O alcance das compensações, os critérios aplicáveis aos combustíveis alternativos e a flexibilidade concedida aos fabricantes continuam dependentes da versão final da legislação.
A Europa não abandonou a eletrificação, mas poderá estar a afastar-se de uma proibição absoluta dos motores de combustão novos em 2035. Se o acordo avançar nos moldes anunciados, a gasolina, o gasóleo e os híbridos poderão continuar a ter um lugar no mercado europeu para lá dessa data — embora sujeitos a regras mais exigentes sobre as emissões.




































